História

A ESCOLA DE BELAS ARTES DA UFBA

Primeira pesquisa realizada por Juarez Paraíso sobre a Escola de Belas Artes – 1989-1990

A participação da Escola de Belas Artes na produção cultural da comunidade baiana e nordestina sempre foi constante e expressiva: remonta à sua própria fundação em 17 de dezembro de 1877, por Miguel Navarro Y Cañizares. Para a fundação da Academia de Belas Artes da Bahia Miguel Navarro Y Cañizares teve o apoio do Presidente da Província Henrique Pereira de Lucena (Barão de Lucena) e contou com a prestimosa colaboração dos artistas João Francisco Lopes Rodrigues e dos seus filhos João Francisco Lopes Rodrigues Filho e Manuel Silvestre Lopes Rodrigues, do Dr. Virgílio Climaco Damásio, do engenheiro arquiteto José Allioni, do professor primário Austricliano Ferreira Coelho e do jornalista Amaro Lellis Piedade. A Escola de Belas Artes é a Segunda Escola Superior da Bahia e a Segunda Escola de Arte do Brasil. Escola secular, portanto, a sua contribuição histórica e artística tem sido presente graças ao talento e à dedicação dos responsáveis pela sua existência, ainda mais quando as dificuldades, e agruras, foram e são freqüentes. O relevante significado do seu passado por si se faz presente, e foi o fator preponderante, decisivo, para o impedimento de sua participação na equivocada e mal sucedida fusão das Escolas de Artes, por ocasião da última reforma de ensino.

Tendo de início o nome de Academia de Belas Artes da Bahia, passou a ser denominada de Escola de Belas Artes da Bahia, passou a ser denominada de Escola de Belas Artes da Bahia, por força da reforma do ensino secundário e superior da República de 1891, por Benjamin Constant. Os primeiros decênios de sua existência descrevem uma fase heróica, quando as ameaças de extinção só foram dizimadas pelo esforço comum, pelas subvenções e pela ajuda de beneméritos, como os Governadores Joaquim Manoel Rodrigues Lima e Luiz Viana. Deste período destacam-se Manoel Lopes Rodrigues, João Francisco Lopes Roqrigues, Manoel Querino, José Nivaldo Allioni, Braz Hermenegildo do Amaral, Archimedes José da Silva, Cyrilo Marques, Agripiniano de Barros, Oséas dos Santos.

A Escola de Belas Artes alcança do fim do século, 1900, com o reforço de dois artistas estrangeiros: Maurice Grun, pintor russo, e o escultor francês Joseph Gabriel Sentis. A participação de artistas de fora do país se repetiria em 1907 com a vinda do escultor italiano Pasquale de Chirico, autor de inúmeros monumentos, como o de Castro Alves e do Barão do Rio Branco, com o pintor e músico Adan Firnekaes em 1959, e com a vinda de Karl Heins Hansen em 1963, para o ensino da técnica de xilogravura.

Os anos se sucederam trazendo um notável elenco de mestres, alunos, intelectuais e artistas.

O início do século XX é de inúmeras dificuldades que culminam com a eclosão da revolução de 30, quando foram suspensas as subvenções, somente restabelecidas no Governo de Juracy Magalhães.

Sintetizando, a Escola de Belas Artes viveu quatro grandes períodos. O primeiro compreende a sua fase mais heróica, a de sua fundação em 1877 até o fim do século. É uma época de abnegação, da luta pela sobrevivência. É também época das medalhas de ouro, prata e bronze encomendadas em Paris, por iniciativa de Cañizares para premiar os melhores alunos nas exposições de fim de ano. É quando (1897) a Escola adquiriu em Paris a sua extraordinária coleção de gesso clássico, uma das melhores do país. O segundo, vai de 1900 a 1946, e é um período de afirmação, reconhecimento dos seus cursos, culminando com sua incorporação à Universidade da Bahia. É quando as medalhas são substituídas pelo prêmio de viagem Caminhoá. É quando surge Presciliano Silva, um Gênio da Pintura Pós-Impressionista. O terceiro período de 1946 a 1961, é caracterizado pela extraordinária direção de Manoel Ignácio de Mendonça Filho, época das primeiras mudanças para um ensino mais moderno e atual. O quarto período vai de 1961 até os nossos dias.

Desde a sua fundação, a Escola de Belas Artes teve como Diretores: Miguel Navarro Y Cañizares, João Francisco Lopes Rodrigues,, Braz Hermenegildo do Amaral, Eduardo Dotto, José Nivaldo Allioni Filho, Leopoldo Bastos do Amaral, Américo Furtado Simas, Manoel Ignácio de Mendonça Filho, Carlos Sepúlveda, João José Rescala, Emídio Magalhães, Evandro de Santana Schneides, Mercedes Kruscheswsky, Ivo Vellame, Herbert Magalhães, Ana Maria Leite, Márcia Magno Baptista. A presença do Mendonça Filho foi fundamental para a afirmação da EBA. A sua influência foi marcante pelo talento e firmeza de liderança. Amigo pessoal do Reitor Edgar Santos, reformou completamente sede da Escola, o Solar Jonathas Abbott, contribuiu decisivamente para a incorporação da Escola na Universidade, obteve novos equipamentos, inclusive a Biblioteca especializada de artes plásticas e arquitetura, contratou os primeiros professores, artistas plásticos e arquitetos modernos como Mário Crávo Jr., João José Rescala, Henrique Oswlad, Jacira Oswald, Maria Célia Calmon, Adan Firnekaes, Fernando Leal, José Bina Fonyat Filho. Era notável o quadro de professores desta época, destacando-se Francisco da Conceição Menezes, Leopoldo Amaral, Albérico Fraga, Otávio Torres, Oscar Caetano da Silva, Walter Veloso Gordilho, Hélio Gomes Simões, Romano Galeffi, Américo Simas Filho, Cid. Teixeira, Carlos Eduardo da Rocha, Sílvio Santos Faria. Sempre sob a liderança de Mendonça Filho, destacavam-se os artistas: Alberto Valença, Presciliano Silva, Raimundo Aguiar, Emídio Magalhães, Robespierre de Farias, Jaime Hora, João José Rescala, Jair de Figueredo Brandão, Maria Célia, Diógenes de Almeida Rebouças, August Adolf Buck, Ismael de Barros.

No plano do ensino e da educação formal a Escola de Belas Artes tem tido um papel de destaque. Milhares de jovens foram e são beneficiados pelos seus ensinamentos. A partir de sua fundação a Escola mantinha um curso de Desenho, Pintura, Arquitetura e Música. Em 1918 o Conservatório de Música separou-se da EBA, transformando-se no Instituto de Música da Bahia. Manteve também um Curso Primário, Curso de Francês, de Português, de Matemáticas Elementares, de História Universal das Artes e de Ciências Físicas naturais, exigidos para as matrículas nos cursos de Pintura, Escultura e Arquitetura. A Escola mantinha um curso anexo, popedêutico, e um curso noturno para operários.

Em 1943 o Governo de Getúlio Vargas, através do Ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema, reconheceu o Curso de Pintura, de Escultura e o Curso de Gravura. O Curso de Arquitetura foi reconhecido em 1949. Obtendo a sua autonomia como Escola independente, depois de uma longa convivência, separou-se o Curso de Arquitetura da Escola de Belas Artes em 1961. Foi introduzido o Curso de Licenciatura em Desenho, permanecendo os Cursos de Pintura, Escultura e Gravura. O vazio provocado pela saída do Curso de Arquitetura determinou uma grande reação coletiva, quando todas as aulas foram paralisadas, para uma reflexão mais séria sobre os destinos da Escola. Aconteceu um grande Seminário, onde foram questionados os conteúdos das disciplinas, tendo sido realizado uma oficina de produção artística, orientada para resultados mais condizentes a uma expressão plástica contemporânea, moderna. O resultado foi surpreendente, tendo sido mostrado em uma grande exposição montada nas dependências do Belvedere da Sé.

Buscando uma melhor atualização dos Cursos existentes, a primeira grande reforma de ensino da Escola culminou com a eliminação dos cursos isolados de Pintura, Escultura e Gravura. Surgiu o Curso de Artes Plásticas em 1964, caracterizada por uma formação básica e a especialização opcional em uma determinada técnica no último ano. Em 1967 realizou-se o primeiro Simpósio pró-reformulação do Ensino da Artes, coordenado por Valentin Calderon e contando com a participação da Escola. Ficou comprovado a urgente necessidade de implantação e funcionamento dos Cursos de Publicidade e Artes Gráficas, Arte Decorativa e Museologia, de criar um Curso de Desenho Industrial e de realizar-se atividades de extensão, mais intensa e constantemente. No Fórum de Debates de 1968, realizado na Escola, procurou-se novas soluções para a sua reestruturação.

Em 1969, após um interminável debate entre Ala Jovem e a mais Conservadora da Escola, ficou aprovado pela Congregação a eliminação da utilização do gesso clássico como modelo para o ensino do desenho.

A última grande reforma realizada foi em 1983, e nesta época foram introduzidos novos objetivos e metas, sendo que os conteúdos foram revistos, predominando até hoje. A aplicação desta reforma não se deu integralmente devido às diversas dificuldades de contratação de pessoal e obtenção de equipamentos.

Inúmeras têm sido as mudanças e tentativas para a melhoria dos cursos existentes. Por outro lado, os principais acontecimentos de Artes Plásticas da Bahia tiveram relação direta ou indireta com a Escola. É necessário considerar que até a década de 30 havia uma carência quase total quanto à informação e ao consumo na área das Artes Plásticas. O papel da Escola sobressaiu-se principalmente pela ausência de Museus, revistas especializadas, Salões e Galerias de Arte. O Museu de Arte Moderna só seria inaugurado em 1960, pela Arquiteta Lina Bo Bardi. O primeiro Salão de Ala e o Jornal de Ala criados pelo Poeta Carlos Chiaccio surgiram em 1937 e a primeira Galeria de Arte, a Galeria Oxumaré do Poeta Carlos Eduardo da Rocha, seria inaugurada em 1950.

Já na década de 60 surgiu uma das mais importantes gerações de gravadores da Bahia e do Brasil: Emanoel Araújo, Edson da Luz, Yeda Maria, Juarez Paraíso, Leonardo Alencar, José Maria, Hélio Oliveira, Sônia Castro, Edizio Coelho, Glay Melo, Gilberto Oliveira. Todos estes artistas foram frutos do Atelier de Gravura da EBA, sob a orientação de Mário Cravo Jr., Hansen Bahia e Henrique Oswald.

Nesta década a Escola está intensamente presente. Catalisou quase todos os acontecimentos de Artes Plásticas da Bahia. A Revista da Bahia tem como Diretor Artístico um de seus professores. Surge a Galeria Convivium, responsável pela mostra dos principais acontecimentos da vanguarda local e nacional. É criada a Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia e são realizadas as duas Bienais Nacionais de Artes Plásticas, quebrando a hegemonia do eixo Rio-São Paulo. Desta época são os artistas: José Maria, Hélio Oliveira, Sante Scaldaferri, Marisa Gusmão, Yeda Maria, Leonardo Alencar, Juarez Paraíso, Edsoleda Santos, Humberto Rocha, Angelo Roberto, Liana Bloise, Riolan Coutinho, Zélia Maria, Marlene Cardoso, Mercedes Kruschewsky, Edizio Coelho, Vera Lima, Emanoel Araújo, Edvaldo Gato, Edson da Luz, Gilberto Oliveira. Na verdade estes artistas constituem a Segunda geração de Artistas Modernos da Bahia. Os principais artistas da década de 70 tiveram passagem pela Escola de belas Artes e foi relevante o papel estimulador dos salões Universitários e da Galeria Cañizares, expondo artistas profissionais e artistas emergentes. Desta época são destacáveis os artistas: Paulo Matos, Terciliano Jr., Zivé Giudice, Maso, Maaia Adair, Márcia Magno, Florival Oliveira, Sônia Rangel, Hilda Oliveira, Carmen Celeste, Terezinha Dumet, Denise Pitágoras, Guache, Murilo, Leo Celuc, Veluisio Bezerra, Ailton Lima, Graça Ramos, Bel Borba.

No reitorado do Professor Macêdo Costa foi realizado um painel coletivo para a Biblioteca Central da UFBA., com a contribuição individual de todos os artistas que tivessem vinculação com a EBA. O resultado foi prodigioso, comprovando a importância histórica e cultural da Escola de Belas Artes.

A presença da Escola tem sido também notável na estrutura visual da Cidade por ocasião dos grandes acontecimentos populares. Nas concorrências para as decorações do Carnaval, a partir de 1965, os Professores, alunos e funcionários da EBA, sempre estiveram presentes. O mesmo tem acontecido quanto aos monumentos, esculturas e murais existentes na Cidade do Salvador.

No plano intelectual a produção da Escola tem sido relevante, destacando-se as diversas pesquisas e teses já realizadas e artigos publicado nos jornais e revistas especializadas,

Atualmente a Escola de Belas Artes concentra esforços para a atualização dos seus cursos e implantação de novos, a começar, já a partir de 1991, com o Curso de Desenho Industrial (habilitação em Programação Visual) e o Curso Superior de Decoração. O funcionamento destes cursos em 1991 foi recentemente avaliado e devidamente programado através de expressivo Seminário realizado no mês de junho p.p. pela Diretoria atual da Escola e que contou com todos os seus professores e proeminentes profissionais das diversas áreas em questão. A partir deste Seminário foram também previstos para 1992 o Curso de Restauração, o Curso Superior de Fotografia e o Mestrado de Artes Plásticas.

O trabalho extensionista da Escola tem sido também notável, através dos seus vários cursos livres e principalmente da sua Feira de Arte e da Galeria Cañizares.

Mesmo em meio à crise por que atravessa a Universidade Brasileira, a Escola de Belas Artes da Bahia busca a sua atualização, a devida renovação dos seus conteúdos e a improrrogável integração com as mudanças que estão caracerizando o último decênio do Século.

 

Salvador, 18 de dezembro de 1990
{Juarez Paraíso}


HISTÓRICO DA ESCOLA DE BELAS ARTES DA BAHIA

Segunda pesquisa realizada por JUAREZ PARAÍSO sobre a EBA, no período de 1991 a 1992 e utilizada para a Aula inaugural do Mestrado em Arte da Escola em Maio de 1992.

 

“Aos dezessete dos abaixo assignados e de diversas dias do mês de dezembro do ano de mil oitocentos e setenta e sete, às duas horas da tarde, à rua do Caminho Novo do Gravatá, presentemente, o Exmº Sr. Desembargador Henrique Pereira de Lucena, Presidente da Província, em presença outras pessoas, foi  por S. Exa. Declarado inaugurada a Academia de Bellas Artes da Bahia; do que, para constar, em qualquer tempo, eu Austricliano Francisco Coelho, servindo de Secretário, lavrei o presente termo em que me assigno.

(Assignados):

O Presidente
Henrique Pereira de Lucena
Dr. Virgílio Clímaco Damazio
Miguel Navarro Y Cañizares
João Francisco Lopes Rodrigues
José Allioni
João Francisco Lopes Rodrigues Filho
Manuel S. Lopes Rodrigues
Austricliano F. Coelho”

Estava, portanto, inaugurada a Academia de Belas Artes, e verdade se diga, por concepção e iniciativa principal do pintor Espanhol, nascido em Valença, Miguel Navarro Y Cañizares. No entanto, este importante acontecimento, curiosamente, deve-se principalmente a duas circunstâncias: a permanência de Cañizares em Salvador, por que seria uma temeridade continuar viagem com a sua família para a capital da Corte Imperial, o rio de Janeiro, onda havia um surto de febre amarela, e a sua saída do Imperial Liceu de Artes e Ofícios, fundada em 1872, onde lecionava pintura, por conseqüência de um grave desentendimento com a Diretoria.

Foi inestimável o apoio dos signatários do Termo de Inauguração, destacando-se a contribuição do Presidente da província Henrique Pereira de Lucena (Barão de Lucena) sem deixar de mencionar o jornalista Amaro Lellis Piedade (Prof. de Estética), para a fundação da Academia de Belas Artes, o que na verdade se deu com muito entusiasmo, mas com muito pouco recurso. Independente das doações pessoais dos professores e alunos, em 1881 a Academia contava apenas com uma pequena subvenção de um conto de réis, votada pela Assembléia Provincial. Foi muito importante a doação do Engenheiro Bahiano Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá de 120 apólices da Dívida Pública Federal para a instituição do “Prêmio de viagem a Europa”. Os recursos que manteriam a Escola já estavam definidos  no artigo 2º do capítulo I, sobre a Instituição, dos Estatutos aprovados em sessão de Congregação de 7 de fevereiro de 1928 (registrado no cartório do Registro de Títulos e Documentos sob o número de ordem 315, livro 5, em 22 de fevereiro de 1928) Art. 2º. Para a consecução dos seus fins, além do Legado Caminhoá, nos termos da respectiva verba testamentária, de material de ensino, biblioteca e mobiliário, que constituem o seu patrimônio, a Escola recorrerá ao auxílio dos poderes públicos, às taxas de matrículas, de mensalidades, de exames, ou contribuições outras, donativos, benefícios etc.

O primeiro espaço da Academia foi o atelier do seu fundador, na própria casa de Cañizares, no 2º andar de uma grande sobrado da Praça do Palácio, esquina da misericórdia com a ladeira da Praça. No entanto, no mesmo ano de sua fundação, a Academia foi transferida para uma parte do antigo Solar Jonathas Abott, cedida pelo Governo do Estado, no qual foram realizadas adaptações e reformas para melhor servir ao ensino das Artes Plásticas. Em 1917, quando ameaçado de ruir parcialmente, o Prof. Oséas dos Santos, então Diretor da Escola, com a ajuda do Governador da Bahia Dr. Antônio Moniz Ferrão de Aragão, determinou a total reforma do prédio. Outra grande reforma foi também feita anos depois com Mendonça Filho. A 14 de março de 1949, o Governador Octavio Mangabeira transferiu definitivamente o prédio para a Escola de Belas Artes, determinando que o Prof. Anísio Teixeira, Secretário de Educação e Saúde da época, assinasse a escritura de doação, concretizando o que já determinava a lei nº 84 de 12 de agosto de 1948. De posse de sede própria pode assim a Escola de Belas Artes incorporar-se à Universidade da Bahia, graças ao empenho do Reitor Edgar Santos e de personalidades como Pedro Calmon, Cezario de Andrade e Izaias Alves. O Dr. Octavio Mangabeira passou a ser um benemérito da Escola e é interessante ressaltar que nos termos da doação o prédio seria da Escola de Belas Artes e inalienável, condição que não foi respeitada quando vendida pelo Reitor Roberto Santos ao então seu amigo o Prefeito Antônio Carlos Magalhães. Atualmente o antigo Solar Jonathas Abott, situado à rua 28 de setembro, está servindo de sede a uma repartição pública da Prefeitura.

Com a reforma Universitária do Reitor Roberto Santos e o crescimento do “Campus Universitário” a Escola de Belas Artes ficou praticamente isolada, à semelhança da Escola de Medicina, Filosofia e Ciências Econômicas. Por outro lado, havia por parte de pessoas de princípios morais rígidos e equívocos, a convicção de que a Escola era muito prejudicada por estar mal situada, em conseqüência de ter o meretrício como vizinhança, os inúmeros “Castelos e casas de mulher dama”. Diga-se de passagem que a rua 28 de Setembro era uma das mais tradicionais e expressivas ruas de Salvador, relíquia da Arte Colonial Barroca, adjacente à Igreja e Convento do São Francisco. Possuía uma vida vibrante e significativa por ser acesso natural ao Terreiro de Jesus, à praça da Sé, à ladeira da Praça, à Misericórdia, à rua Chile, à rua do Gravatá, e à Baixa dos Sapateiros. Do último andar do prédio descortinava-se um verdadeiro tapete de telhados coloniais da Bahia Antiga e dali presenciávamos durante muitos anos a progressiva mudança da cidade, os incêndios criminosos, dizimando e destruindo a nossa herança Colonial.

Muitos desejavam a mudança da Escola para o Campus Universitário e ficou estipulado que o melhor lugar seria onde se encontrava a Escola de Geologia, certamente por estar perto da Reitoria, da Escola de Teatro, Música e Dança. Alegava-se, inclusive que com esta mudança seria inevitável a integração da Escola com as demais escolas de Arte. Em 16 de março de 1966 o pintor e professor João José Rescala, Diretor da Escola, comunicava aos seus colegas de Congregação sobre os entendimentos com o Reitor Miguel Calmon para a aquisição de um prédio no Canela, sendo digno de registro a intermediação do Prof. Américo Simas Filho. Em 1967 a Escola de Belas Artes já estava com as suas aulas teóricas funcionando no novo prédio, nº 15 da rua Araújo Pinho onde hoje está localizada a Galeria Cañizares. O Prof. Cid Teixeira ficou responsável pela mudança e adaptações, tanto quanto pelo expediente no novo prédio. Na Congregação de 10 de março de 1967 eu me pronunciei contra esta mudança parcial, afirmando que tinha certeza de que permaneceríamos por muito tempo nos barracões de Geologia e lamentava que isto estava acontecendo justamente no momento da Reforma Universitária e quando Arquitetura, que era um dos nossos cursos, já tinha conseguido construir um prédio próprio na Federação, e ainda mais, justamente quando a Escola estava completando 90 anos de existência. Finalmente ficou estabelecido que em princípios de 1968 a Escola de Belas Artes seria transferida para as dependências da Escola de Geologia, sendo Diretor nesta época o Prof. Emídio Magalhães e Reitor o Dr. Roberto Santos. No entanto, seria necessário que a Escola fosse instalada provisoriamente, por 1 ano, nas dependências inferiores do Museu de Arte Sacra, para que o solar Jonathas Abott pudesse ser vendido, possibilitando com o dinheiro desta transação, ser iniciada a construção do novo prédio da Escola de Geologia, uma vez que o restante da verba já estava garantida pelo Banco Internacional de Desenvolvimento em função da Reforma Universitária. Independente, portanto, do prédio da Escola de Belas Artes que era inalienável ser vendido e do dinheiro conseqüente ser destinado à construção do prédio para outra Escola, iríamos ainda para os velhos barracões de Geologia, ficando antes hospedados e mal alojados no Museu de Arte Sacra. A estadia da Escola de Belas Artes no Museu de Arte Sacra foi aprovada, mas com o voto contra do seu Diretor, Dr. Clemente Nigra, que manifestou-se receoso daquela invasão nas suas “sagradas” dependências, durante a reunião da Congregação do dia 12 de fevereiro de 1968, presidida por Emídio Magalhães e com a presença do Reitor Roberto Santos e dos professores Aristides da Silva, Alberto Valença, Aldemiro Brochado, Augusto Buck, Carlos Eduardo da Rocha, Evandro Schneiter, Ismael de Barros, João José Rescala, Juarez Paraíso, Messias Lemos Lopes, Raimundo Aguiar, Riolan Coutinho, Romano Galefi, Cidelmo Cavalcante, Fernando Fonseca, Humberto Lyrio da Silva, Hansen Bahia e Mirabeau Sampaio. Nesta reunião estabeleceu-se também que a Escola teria sua Galeria de Arte no prédio onde estava funcionando prévia e provisoriamente as aulas teóricas. As mudanças foram realizadas com bastante prejuízos para a Escola, devido à perda inestimável de parte do seu patrimônio e do desconforto no Museu de Arte Sacra, não obstante o seu excepcional espaço arquitetônico e paisagístico.

Somente no primeiro semestre de 1970 foi possível a propalada mudança para a rua Araújo Pinho nº 19, já com o Prof. Ewandro Schneiter como Vice-Diretor em exercício. É quando se inicia um novo período na SAGA da Escola de Belas Artes.

 Habitamos por muito tempo os velhos barracões de Geologia, alguns já deteriorados e ameaçadores, uma péssima recomendação para a Universidade Federal da Bahia.

Muitas promessas de prédio novo, mas apenas promessas. Finalmente, no Reitorado do Dr. Macêdo Costa a esperança de um prédio próprio cedeu lugar ao compromisso da UFBA em reunir as Escolas de Arte em um só espaço, uma espécie de “Centro das Artes”, onde as ações experiências artísticas poderiam ser interrelacionadas, integradas. Durante muito tempo, sucederam-se as entrevistas, ouvidos todos os professores, analisadas todas as necessidades, valorizando-se o verdadeiro conceito de Arquitetura, em busca de um programa ideal, principalmente como função pedagógica. O projeto foi concluído, para desafogo de todos, quando, de repente, a Reitoria veio descobrir a sua inexequibilidade, diante dos altos custos apresentados.

Mais uma decepção e mais uma prova do preconceito da política da UFBA com referência à área das Artes, a área V, sempre relegada a segundo plano, pois na verdade muita obra de vulto foi realizada naquele período, a exemplo da Biblioteca Central. Mas “além da queda, coice”, como se dez no vulgo, pois logo em seguida a EBA só não foi transferida para um caixão de concreto armado, confinado no prédio vizinho à Faculdade de Arquitetura, porque eu fiz uma agressiva interferência e contei com o apoio absoluto de todos os colegas que finalmente recusaram o que já estava quase consumado, isto é, a venda do espaço e dependências da EBA para o comerciante Paes Mendonça, para com o dinheiro conseqüente construir um prédio para outra Escola, repetindo-se a mesma história anterior.

Embora de difícil adequação ao ensino e à prática das Artes Plásticas, foram implantadas estruturas modulares da FAEC, na gestão da Diretora Ana Maria Vilar Leite, substituindo 4 dos antigos barracões, tendo sido impedido pela comunidade da EBA que mais uma dessas estruturas fosse localizada na frente do prédio principal da Escola, prejudicando a historicidade e a beleza natural do espaço.

Nos tempos atuais, presenciamos uma espécie de Renascimento da EBA, onde se vê credibilidade e respeito, graças ao empenho e à sensibilidade de sua Diretora Profa. Márcia de Azevedo Magno Baptista. No que tange aos aspectos materiais, a EBA teve presentemente o seu prédio principal totalmente recuperado, inclusive esteticamente, eliminados os tabiques e espaços labirínticos. A presença de obras de arte restabeleceu o contato imprescindível e começamos, novamente, depois de quase 3 décadas, a respirar e a visualizar o espaço de uma Escola de Belas Artes. Porém, muita coisa ainda há de se fazer, trazendo mais conforto para o desempenho das atividades pedagógicas. O espaço ainda é insuficiente e já foi realizado um projeto completo pelo Mestrado de Arquitetura e o Prof. Pasqualino Magnavita que será apresentado e submetido à apreciação dos professores, alunos e funcionários.

O ENSINO NA EBA

E quanto ao ensino que é uma de suas funções principais? O Ensino das Artes Plásticas na Bahia foi realizado principalmente nos atelieres e oficinas particulares. A partir do século dezenove vamos encontrar alguns cursos regulares, como a Aula Pública de Desenho que teve início em 1813, contando como professor Antônio da Silva Lopes, Joaquim Franco Velasco, José Rodrigues Nunes e Francisco Rodrigues Nunes. Mas todo o ensino era realizado através de reprodução de técnicas e da cópia em geral de modelos, sempre prevalecendo o estilo tomado como referência, em qualquer das áreas das Artes Plásticas. A cópia de estampas era preponderante.

Destinado ao ensino das Artes Plásticas, da Arquitetura e da Música, a Academia de Belas Artes prosseguiu com o método da cópia de estampas e de modelos de gesso, sendo que somente em fins do século dezenove, foi utilizado o Modelo Vivo, provavelmente com a vinda em 1893 do pintor russo Maurice Grün para lecionar modelagem, ornamentação, pintura do natural e desenho de relevo.

As Escolas de Belas Artes foram criadas nos moldes de sua Congênere Francesa, a “Real Academie de Beaux-Artes”, segundo os preceitos neo-clássicos. Tendo como antecedente a missão Francesa de 1816, o acadêmico-realismo instalou-se nas Academias de Belas Artes do Brasil, sendo a maior referência a Escola Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro. No parágrafo único do artigo 1º do regimento interno da Escola de Belas Artes da Bahia, aprovado pela Congregação, em 22 de junho de 1936, a subordinação do ensino ao modelo acadêmico-realista está bem explicitada: “parágrafo único – Há na Escola de Belas Artes da Bahia o curso de Arquitetura e o curso de Escultura, Pintura e Gravura, conforme o programa da Escola Nacional de Belas Artes, podendo, entretanto, posteriormente serem criados outros cursos profissionais superiores e de aperfeiçoamento”. Assinam este regimento José N. Allioni, Albérico Fraga, Frederico Simas Saraiva, Alberto Valença, Carlos Chiacchio, Américo F. Simas. Presciliano Silva, Francisco Conceição Menezes, Mendonça Filho, Carlos Sepúlveda, Pasqual de Chirico, Aristides da Silva Gomes, Carlos de Seixas Pereira e Tito Cezar Pires.

Eliminada a cópia de estampa, segundo o mesmo regimento, nessa época eram exigidas as seguintes “cadeiras”: I – Geometria Descritiva; II – Perspectiva e Sombra; III – Anatomia (duas partes); IV – História da Arte (duas partes); V – Arte Decorativa (duas partes); VI – Arquitetura Analítica (duas partes); VII – Desenho; VIII – Modelagem (duas partes); IX – Desenho Modelo Vivo (quatro partes); X – Pintura (seção de pintura); XI – Escultura (seção de escultura); XII – Gravura (seção de gravura).

Neste conjunto de disciplinas, Desenho tinha como modelo a “Estátua” e pelo currículo as disciplinas eram as mesmas para todos os cursos de Artes Plásticas, sendo que a matéria que dava o nome do curso, isto é, da habilitação, estava exclusiva e presentemente do 2º ao 4º e o último ano. Para a devida formação do estudante dava-se uma grande importância ao Desenho de Modelo Vivo, podendo o aluno repeti-lo sem limite de tempo e da mesma forma com Pintura, Escultura ou Gravura. O ensino da Modelagem dizia respeito à cópia e composição de motivos de gesso e do natural e a disciplina de Escultura comportava o estudo do Modelo Vivo, em relevo completo, baixo e alto relevo e exercícios periódicos de composição.

A Pintura dedicava-se ao estudo de natureza-morta, figura e paisagem, exercícios periódicos de composição e na Gravura praticava-se o estudo de aço e pedras preciosas. É curioso que na “Cadeira” de História da Arte eram desenvolvidos estudos de Mitologia, grega naturalmente, assim como era estudado a Arte Brasileira da época pré-Cabrália aos modernos artistas do Brasil, passando pela missão Artística Francesa de 1816.

Tendo a cópia como único método de ensino, o conhecimento da perspectiva cêntrica e da anatomia humana, a prática da modelagem e do desenho de modelo de gesso e do natural, incluindo o Modelo Vivo, eram a base para a formação acadêmica do estudante, ultimada pelo exercício constante da pintura ou da escultura, a partir da contemplação e da imitação da natureza.

A Academia de Belas Artes, pelos relatos existentes, teve a sua existência inicial pensada modestamente, com o engenheiro arquiteto José Vivaldo Allioni encarregado do ensino de Arquitetura e o próprio Miguel Navarro Y Cañizares com a incumbência do ensino do Desenho e da Pintura. É importante ressaltar a presença de Manoel Querino, e de Oséas Santos como primeiros alunos, pois viriam a ser mais tarde cronistas e os principais testemunhos dos anos da Academia. Por uma listagem de autoria do professor Américo Simas Filho, em seguida aos primeiros professores e fundadores da Academia podemos citar, dentre outros, Braz do Amaral, Eduardo Dotto, José Nivaldo Allioni, Américo Furtado de Simas, Presciliano Silva, Manoel Lopes Rodrigues, Agripiniano de Barros, Oséas Santos, Constança Lopes Rodrigues, Etelvina Rosa Soares, Pasquale De Chirico, Antônio Navarro de Andrade, Oscar Silva Lima e Otávio Torres.

Em 3 de abril de 1959 o regimento interno sofre uma reforma parcial, com a introdução do curso de Professorado de Desenho, sistematizando e apresentando conquistas realizadas anteriormente, como: “artigo 4º – São os seguintes os cursos de Graduação: a) Arquitetura; b) Belas Artes, compreendendo I – Pintura; II – Escultura; III – Gravura; c) Professorado de Desenho”. O curso de Belas Artes passou a ter dois ciclos, o fundamental, comum a todas as habilitações e o profissional, distinto para cada qual. Nesse regimento podemos observar, em conjunto, modificações anteriores, com relação ao regimento de 1936, prevalecendo desde o início de 1950, sendo os mais importantes: 1) desdobramento da matéria de Desenho em disciplinas de Desenho Artístico (duas partes), Desenho de Croquis e de Modelo Vivo; 2) a introdução de novas disciplinas como Estética, Estudos Brasileiros, Teoria, Conservação e Restauração da Pintura, Gravura de Talho Doce, Água-forte e Xilografia, Gravura de Pedras Preciosas e Medalhas.

Embora Acadêmico e Anacrônico o curso de Belas Artes tinha para as suas Habilitações de Pintura, Escultura e Gravura, uma estrutura bem simples e, para um período de 5 anos, eram oferecidas 6 disciplinas para o ciclo básico e 8 para o ciclo profissional. Desta forma o aluno poderia dedicar-se completamente ao estudo sequenciado do desenho, da modelagem, da composição decorativa, da pintura, da escultura ou da gravura. Claro que o resultado só poderia ser limitado se não fosse já comprometido com a ideologia existente.

A Escola de Belas Artes tem na década de 1960 uma fase de completa renovação dos seus ideais, uma ruptura com o passado cujos protagonistas eram os grandes mestres da Arte Acadêmico-Realista. Os Cânones da Arte Neo-Clássica, dos românticos e dos Realistas do século dezenove já não serviam como modelos de ensino e a nova geração teve que enfrentar as dificuldades de uma fase de profundas mudanças e inquietações.

Sou testemunha e personagem dessa história, dessa época difícil e heróica, na qual o ensino era fruto de absoluta abnegação e confissão de amor à Escola. Na verdade, o processo de mudança tem início na década anterior, graças à inteligência e à intuição do grande líder Manoel Ignácio de Mendonça Filho, pintor e professor de Desenho, Diretor da Escola de 1946 a 1961. Líder inconteste, de excepcional habilidade na transformação da rígida estrutura Acadêmica daquela época, soube reconhecer e orientar, sutil e decisivamente as mudanças que progressivamente tomavam corpo.

Os grandes Mestres que liderava eram homens excepcionais da estirpe de Presciliano Silva, Ismael de Barros, Emídio Magalhães, Alberto Valença, Raimundo Aguiar, Carlos Sepúlveda, Jair Brandão, Newton Silva, Oscar Caetano, Conceição Menezes, Leopoldo Amaral, Albérico Fraga, Walter Gordilho, Aristides Gomes e que, dentre outros, constituem a 2ª geração de professores da Escola de Belas Artes, desde a sua fundação em 1877. Aquele era um grupo disciplinado, cuja rigidez e convencimento soube Mendonça Filho vencer, sem no entanto desagregá-los, financiando e estimulando as iniciativas renovadoras que introduzíamos, a princípio Maria Célia, depois eu próprio, Jacyra Oswald, Henrique Oswald e todos os demais professores advindos da Arte Moderna. É preciso que se diga, naqueles tempos, arte moderna era sinônimo de aventura e de sacrilégio com relação à “verdadeira Arte” que a Escola de Belas Artes defendia, considerando o artista um intérprete sensível da natureza, (mas absolutamente comprometido com os prejuízos da Arte Acadêmico-Realista).

Naquela época a mente e a sensibilidade do estudante eram condicionados pela observação constante e sistematizada dos exemplos da “Arte Clássica”, através do método da cópia ostensiva dos Modelos de Gesso principalmente da escultura grega, greco-romano e neo-clássica. Para isso contava a Escola com uma das mais completas coleções de “Gesso Clássico” do Brasil, adquirida em Paris em 1897. Com as diversas mudanças que sofreu a Escola, seu patrimônio de gesso foi parcial e criminosamente destruído, não havendo uma perda total por conseqüência do projeto de recuperação das peças e esculturas de gesso, promovido na gestão da Profa. Márcia Magno.

Depois do gesso, o treinamento mais difícil com o modelo vivo. Eu mesmo fui condicionado ao tipo de abstração linear que caracterizava Ingres e à elegância das proporções e da forma da arte clássica.

A perspectiva renascentista era por todos nós daquela época aprendida nas lições do mestre Raimundo Aguiar, sempre meticuloso e exigente.

Depois de Octávio Torres, surgiu o extraordinário cientista Aldemiro Brochado com quem aprendemos as lições de anatomia humana, com muito esforço entendidas como “anatomia artística”.

O desenho, a pintura e a escultura, conclusiva na nossa formação, eram de responsabilidade dos Mestres Mendonça Filho e Alberto Valença, Emídio Magalhães e Ismael de Barros.

Independente do ingresso de Romano Galeffi e dos artistas realistas Jair Brandão, Newton Raimundo da Silva e Emídio Magalhães, em 1953, Mendonça Filho, como Diretor, propiciou o ingresso de Diógenes Rebouças e Bina Fonyat Filho, primeiros arquitetos modernos da Bahia, e João José Rescala, já praticando uma arte bastante pessoal e considerada moderna pelo seu nível de abstração. Ingressa nesta época também Maria Célia Amado Calmon du Pin e Almeida, a quem na verdade se pode tributar as mais significativas mudanças no ensino da Escola de Belas Artes. Introduziu modificações drásticas no ensino de Croquis, inúmeras experiências composicionais, o emprego de diversas matérias e técnicas como a “collage”, pela primeira vez na Escola; no entanto Maria Célia retirou-se da Escola em 1956, sendo substituída por Abrão Kosminsky, de temperamento mais brando e de vocação mais acadêmica. Ingressam ainda Evandro Schneiter, Hansen, Mirabeau Sampaio e Udo Knoff.

No final da década de 1950, Mário Cravo entra para a Escola de Belas Artes, com a finalidade de lecionar um curso livre de Gravura em metal, ao qual eu compareci como aluno, juntamente com Raimundo Aguiar, Calasans Neto, Jaime Hora, Newton Silva e outros. Depois fez o concurso de Livre Docência e permaneceu na EBA.

Com a ajuda de Mendonça Filho, surgem também nessa época Adam Firnekaes, músico e artista pintor alemão que ensinava no ICBA, Jacyra de Carvalho Oswald, Henrique Bicalho Oswald, Hansen Bahia e eu próprio. Foi justamente no início de 1960 que eu tive uma proteção mais direta de Mendonça Filho, quando elaborei e defendi uma tese para concurso de Livre docente, voltada para a reformulação do ensino na Escola de Belas Artes, criticando o sistema reinante. Nesse trabalho, embora ingênuo por falta de sistematização científica, apontei as principais faltas do ensino acadêmico, a desatualização da Escola e a urgente necessidade de revisão de suas funções como uma escola de ensino Superior. E por Ter feito críticas diretas a quase todas as disciplinas fui alvo de verdadeiro bombardeio por parte dos professores mais conservadores. Nessa ocasião, Mendonça Filho sempre esteve ao meu lado e na minha defesa, contornando os ataques mais ferozes e atenuando a situação.

A força e o prestígio de Mendonça Filho junto ao Reitor Edgar Santos eram invejáveis. A Escola durante a sua longa gestão, importava material para o uso de rotina diretamente de Paris e até recentemente ainda encontrávamos no almoxarifado da Escola material daquela época.

Durante a década de 1960 os antigos professores começaram a ser substituídos por uma nova geração, principalmente constituído de Mercedes Kauark Kruschewsky, Expedito Nogueira Bastos, Riolan Coutinho, Dagmar Pessoa, Carlos Augusto Bandeira, Marisa Gusmão Fernandes, Humberto Aquino Rocha, Ana Regina Mendonça, Gisélia Figueiredo Passos, Herbert Viana de Magalhães, Luis Gonzaga Cruz, Marione Santos Correia e Zélia Maria, Odete Sampaio (Desta geração de professores já quase todos se aposentaram, principalmente por conseqüência da descabida ameaça de Fernando Collor de Mello da aposentadoria aos 65 anos).

No processo de atualização da Escola foram apresentadas inúmeras exposições de Artistas Modernos no seu Hall de entrada, transformado em Galeria de Arte, todas organizadas conjuntamente por mim e pelo Diretório Acadêmico, quando liderado por Expedito Nogueira Bastos e Luis Gonzaga. Em 1959, a Comunidade Estudantil da Escola já tinha dado uma inconteste demonstração de sua potencialidade e receptividade com relação ao novo, quando organizei juntamente com o Diretório Acadêmico dirigido por Expedito Nogueira bastos um mês de atividade intensiva e completamente livre, uma espécie de curso livre durante as férias de julho de 1959. Este curso contou com a orientação de Henrique Oswald, gravura, Emídio Magalhães, pintura, Mário Cravo Júnior, escultura em madeira e metal, Jacyra Oswald, desenho e composição, Adam Firnekaes, colagem e aquarela, João José Rescala em todas as teorias de pintura. Depois de selecionados os trabalhos foram expostos no Belvedere da Sé, no dia 13 de agosto, com estrondoso sucesso. Foi quando Arquitetura se desligava da Escola de Belas Artes e a Escola tinha dado o passo inicial e definitivo para a sua renovação.

No Regimento Interno da Escola de Belas Artes, aprovado pelo conselho Universitário em sessão do dia 27 de agosto de 1964, surpreendentemente para os desinformados, vamos encontrar no parágrafo primeiro do artigo terceiro: “Os cursos de Graduação são os seguintes:

  1. Curso de Belas Artes;
  2. Curso de Publicidade e Artes Plásticas;
  3. Curso de Arte Decorativa;
  4. Curso de Museologia e Crítica de Arte;
  5. Curso de Licenciatura em Desenho.

Não obstante a aprovação dos novos cursos em 1964 pelo Conselho Universitário, somente 26 anos depois foram realmente implantados, depois de uma verdadeira “Via-crucis”.

A década de 1960 é uma espécie de “anos dourados” da Escola de Belas Artes, época em que foram, inclusive, plantadas as principais sementes para as conquistas subsequentes, acontecendo:

  1. os movimentos mais relevantes de modernidade no ensino e no processo de integração com a comunidade, como a inauguração da Galeria Convivium, as Bienais Nacionais da Bahia, A Revista da Bahia, as Feiras de Arte;
  2. O surgimento da Escola Baiana de Gravura;
  3. A criação dos cursos de Publicidade e Artes Gráficas, Arte Decorativa, Museologia e Crítica de Arte;
  4. A transformação dos cursos de Pintura, Gravura e Escultura, no curso de Artes Plásticas;
  5. A realização do Primeiro Simpósio Pró-Reformulação do Ensino das Artes, realizado em dezembro de 1967, com a presença expressiva da Escola de Belas Artes. Neste Simpósio recomendou-se à Reitoria o funcionamento dos cursos já criados e mais o de Desenho Industrial.

Em 1968 foi realizado nas dependências do Museu de Arte Sacra um “Fórum de Debates”, envolvendo todo o corpo discente e docente, na busca de novas soluções para uma “Nova Escola”. Deste Fórum foram introduzidas algumas melhorias nos cursos já existentes.

A vida da Escola de Belas Artes na década de 1970 tem início nas suas novas – velhas e atuais dependências. É a época principalmente dos Salões Universitários, promovidos por Ivo Vellame na Galeria Cañizares e outros locais.

A década de 1980 tem início com o comprometimento, mais uma vez, de toda a Comunidade da Escola de Belas Artes, objetivando a criação de novos cursos e a reformulação dos já existentes. Depois de 2 anos de tramitação as modificações para o Curso de Artes Plásticas foram aprovadas pelo conselho de Coordenação e está sendo aplicado o novo currículo, de 1983 até os dias atuais. Infelizmente parte deste projeto de 1980 não foi possível perdurar, por falta de recursos materiais, técnicos e pedagógicos da própria Escola e da Universidade. Os projetos integrados e a disciplina de Integração Artística, por exemplo, visando convergência e integração dos conhecimentos teóricos e práticos tiveram que ser abandonados, embora tenham sido sucesso nos primeiros anos de aplicação.

A partir de 1988, a Escola de Belas Artes ganha novo ânimo, graças ao espírito de luta, à sensibilidade e a dedicação de sua nova Diretora, a artista plástica Márcia de Azevedo Magno Baptista que, não obstante ter enfrentado um período bastante difícil, com inúmeras greves de funcionários e professores, soube conduzir a Escola de modo a recuperar a sua credibilidade diante da sociedade e junto à comunidade Universitária. Com imaginação soube sensibilizar dezenas de artistas intelectuais da Bahia e de outros Estados, levando doações em obras de artes plásticas para a realização de um leilão que, depois de dois anos de preparativos, constituiu-se num dos maiores acontecimentos culturais do ano de 1991 em Salvador, vindo a ser também um sucesso comercial. Os recursos deste leilão foram depositados em conta da Universidade e administrados em função da melhoria da Escola em vários setores como o de sua Urbanização e informatização. A Escola de Belas Artes possui atualmente recursos para constituir-se numa das Escolas mais bem informatizadas do Brasil. Na sua gestão foram implantados os cursos de Desenho Industrial e o curso Superior de Decoração, depois de várias décadas de expectativa, esperanças e desilusões. Estão consagrados os esforços de todos que almejam um novo presente e um futuro renovador. Resta a implantação do Curso Superior de Fotografia, já em tramitação, e a criação do Curso de Restauração.

O Mestrado que hoje celebramos é uma prova de que ingressamos no último decênio do século com crescimento e dignidade. A sua implantação se deve ao apoio da Diretora Márcia Magno, mas acima de tudo e principalmente à competência e profissionalismo de Maria Helena Flexor e Roberval Marinho, que muito deram de sua inteligência e sensibilidade para a construção, acreditamos, de um Mestrado da maior qualidade e, pelas suas peculiaridades, talvez único no Brasil.

A década de 1960 e a atual muito se parecem e têm como denominador comum a inquietação, mas também a certeza de um trabalho coletivo voltado para o processo de integração da Escola com a Comunidade, visando o seu constante crescimento.

 

Salvador, 1992
{Juarez Paraíso}


 


© 2016 Todos os direiros reservados - Desenvolvido por uma cria da casa